A perfeição da democracia pós-representativa

23 Febreiro, 2010 (00:00) | ideologia, política

Publicado em Diário Liberdade

A pós-democracia, ou democracia pós-representativa, chegou a tal grau de perfeição que os nossos representantes, homens e mulheres, são imagens fieis de nós mesmos. Votar neles, e escolhê-los, faz como se nós próprios estivéssemos nas instituições, muito perto da Lei e do Rei.

A democracia pós-representativa é tão perfeita que, se um dos nossos representantes morrer ou deixar o cargo, pode ser substituído de contado por outro na mesma lista, pois será uma réplica exata do anterior e de nós mesmos.

A democracia pós-representativa é tão sofisticada que os nossos representantes não precisam perguntar-nos nada. Por total harmonia, sabem já como pensamos e opinamos, inclusive perante temas novos. Além, se nos perguntassem, poderíamos dar, anti-democraticamente, uma opinião errada, diferente da que nos representa fielmente. Uma democracia perfeita não se pode permitir isso.

A democracia pós-representativa é tão fiel que reproduz nas instituições a mesma corrupção e escândalos, se não mais, que se dão na vida diária. Por isso, quando um político nos rouba, somos nós próprios que nos roubamos, e condená-lo seria hipócrita.

Mas a democracia pós-representativa é também tão inteligente que, quando por acaso um político que nos representa fielmente deve ir ao cárcere, o sistema evita que vaiamos todos nós, os verdadeiros culpáveis, para podermos votar de novo noutro político que nos represente com igual fidelidade.

A democracia pós-representativa é tão perfeita que as decisões dos nossos representantes são perfeitas, embora nós não o saibamos. Quando há crise, queremos salários mais baixos e muitos despedimentos, mas não o sabemos. Se vamos a uma guerra para morrer e para matar, é por vontade popular de suicídio e de assassínio. Se há um Rei que nunca foi eleito como máxima autoridade, é porque os representantes sabem que para nós a máxima autoridade nem precisa de ser votada (imaginam a blasfémia de votarmos nos deuses?). Se  um povo submetido não tem soberania é porque não a quer, e portanto não se lhe deve perguntar. A democracia é tão perfeita que, se alguns partidos estão proibidos, é porque os que votariam nesses partidos estão representados mais fielmente noutros partidos, e não o sabem.

Por isso, na democracia pós-representativa os desejos dos políticos são os nossos desejos, e vice-versa. E os políticos têm não só a difícil responsabilidade de cumprirem a nossa vontade com exactidão, mas a mais dura de obrigar-nos a cumprir a vontade deles ainda com maior exactidão. Porque é a nossa. Como os votámos –e muito bem– eles e elas têm o dever de ensinar-nos a votar de novo bem, sem cometermos o grave erro pré-democrático da liberdade, que causou tantas tragédias históricas.