A morte extrema

16 Outubro, 2014 (01:56) | política, violência |

Invirto o título do livro do poeta Mário Herrero A vida extrema para refletir na natureza deste último momento do mundo. É verdade que não existe um desenho, nunca existiu, e portanto é possível que a humanidade estivesse a morrer já logo que começou. Mas agora enxerga-se de maneira inusual a perversão do tempo. O grau de reflexividade sobre o estado do mundo é tal que o capital, por exemplo, poderia programar a destruição de toda a vida ciente num instante. Mais difícil seria programarem a salvação só dos poderosos, e por isso não o fazem. Em definitivo, parece que está a fracassar o projeto de a humanidade ser a consciência auto-organizada da matéria, incluída a si própria. Talvez fracassasse sempre, desde o começo, e não o sabíamos, ou não queríamos imaginá-lo. Talvez fosse sempre mais cómodo lutarmos por manter dentro dessa imaginação uma ilha que aboiava conosco e levava dentro a igualdade, e arribaria a costas diversas e germinaria. No entanto, crescíamos com a lenteza requerida para ir observando a instalação interna da morte pequena, mimese da morte grande das selvas ou das minas. E essa morte interna ia curando o terror suicida da utopia, no processo exatamente homeopático que o poder desejava. E assim foi, década após década, geração após geração, até a este momento singular em que uma pessoa qualquer é capaz de observar o mundo inteiro num instante. Por isso não é possível voltar aos antigos rituais de luta, não operam. Não é possível confiar. Também não há tempo humano para qualquer cousa que não seja uma radical transformação do ser, como uma definitiva injeção de claridade nas veias, com a dor e a sujidade do delito. Todo o restante será tão parcial como a coincidência de ser, qualquer de nós, tão semelhante a uma pedra que distinguir-nos delas é um acaso. Se ainda se mantém o projeto da consciência, matar a morte extrema será, seria, um procedimento igualmente extremo. Seria comparável àquilo que os mitos que procuravam paliar a solidão humana chamavam iluminação. Seria contemplarmos este último minuto do mundo, que em toda a sua dor ainda pode demorar décadas, e decidir pará-lo e revertê-lo, como Moebius, polo menos acreditando na generosa geometria de Moebius, ou como Marx, polo menos acreditando na íntima relação entre a realidade material e a dignidade humana. Seria, pois, organizarmos a expulsão dos poderosos. Isto requer algo mais do que uma inanimada maré, sempre sujeita a ciclos e ritmos superiores. Na maré a água é única, indistinta. Numa assembleia aberta na aberta pradaria, porém, cada corpo permanece em si, distinto mas unido. Numa assembleia contínua de vontades não é preciso renunciar a ser fração organizada e diferente da matéria do mundo: só se unem as vozes se não se perdem, precisamente, no monopólio da unidade. Porque o contrário da voz é a morte. E o contrário da morte humana, a verdadeira e necessária, é esta morte extrema, diária, a que um tempo perverso de monstrosidades e assassinos quer impor. Reparar nela, de acima, como um demorado e enorme fotograma, talvez seja, polo menos, um passo para regressarmos à consciência.

Agora, o Bruno

18 Xuño, 2014 (00:01) | política, violência |

Por fim levaram para a cadeia o terrorista Bruno Ruival, Bruno Vence Ruibal no seu nome espanhol. Já era sem tempo! Andavam toda Compostela e a Galiza cagadas de medo pola sua presença nas ruas. A gente estava apavorada, sei-no de boa tinta. Parabenizo o cidadão ou cidadã que o delatou. Ao parecer, dizem a lei e os jornais, o Bruno teria mantido na sua casa Maria Osório. É natural nele: ali onde se podia apoiar o terrorismo, aí ia o Bruno. Sempre lembrarei uma conversa uma noite em Compostela, no meio da rua, em que me explicou como se faziam as bombas. Advertim-lhe que esta foi exatamente uma das razões (explicar a um operário comunista como se faziam bombas) polas quais o meu avô médico, membro do perigoso Izquierda Republicana, foi justamente fuzilado por Franco em 1936. Mas o Bruno continuou, gesticulando grandes esferas com as mãos, salivando ao reproduzir o som das explosões.
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Quem Possui a História?: 1300 Anos, 44 Gerações

3 Xuño, 2014 (22:58) | monarquia, política, sociedade, violência |

Dom Felipe Juan Pablo Alfonso de Todos los Santos de Borbón y Grecia (1): é filho de Sofía Margarita Biktoria Freideriki tis Elládas e de Juan Carlos I Alfonso de Borbón y Borbón (2), filho de María de las Mercedes Cristina de Borbón y Orleáns e de Juan Carlos de Borbón y Battenberg (3), filho de Victoria Eugenie Julia Ena von Battenberg e de Alfonso XIII León de Borbón y Hasburgo (4), filho de Maria Christine Desideria Henriette von Österreich e de Alfonso XII Francisco de Borbón y Borbón (5), filho de Isabel II María de Borbón y Borbón e de Francisco de Asís María de Borbón y Borbón (6), filho de Luisa Carlota Maria Isabella di Borbone e de Francisco de Paula Antonio María de España (7), filho de Carlos IV Antonio Pascual de España e de Maria Luisa Teresa di Parma (8), filha de Louise Elisabeth de France e de Filippo de España (9), filho de Elisabeta Farnese e de Philippe V de France (10), filho de Louis de France e de Maria Anna Christine Victoria von Bayern (11), filha de Ferdinand Maria von Bayern e de Adélaida Enrichette Maria di Savoia (12), filha de Vittorio Amedeo I di Savoia e de Christine Marie de France (13), filha de Henri IV de France e de Maria del Medici (14), filha de Francesco I dei Medici e de Johanna von Österreich, (15) filha de Anna Jagiello e de Ferdinand I von Habsburg (16), filho de Philipp I von Habsburg e de Juana I d’Aragó (17), filha de Fernando II d’Aragó e de Isabel I de Castilla (18), filha de Isabel de Portugal e de Juan II de Castilla (19), filho de Enrique III de Castilla el Doliente e de Catherine of Lancaster (20), filha de John of Gaunt 1st Duke of Lancaster e de Constanza de Borgoña infanta de Castilla (21), filha de María de Padilla e de Pedro I de Castilla el Cruel (22), filho de Maria de Portugal e de Alfonso XI de Castilla el Justiciero (23), filho de Constança de Portugal e de Fernando IV de Castilla el Emplazado (24), filho de Beatriz von Schwaben e de Fernando III de Castilla el Santo (25), filho de Berenguela I de Castilla e de Alfonso IX de Leão (26), filho de Urraca de Portugal e Savoia e de Fernando II de Leão e Galiza, (27) filho de Berenguera de Barcelona infanta d’Aragó e de Alfonso VII de Leão el Emperador (28), filho de Raymond de Bourgogne e de Urraca I de Leão (29), filha de Constance de Bourgogne e de Alfonso VI de Leão el Bravo (30), filho de Sancha de Leão e de Fernando I de Leão el Magno (31), filho de Minadona de Castilla e de Sancho Garcés III de Pamplona el Mayor (32), filho de Jimena Fernández e de García Sánchez II de Pamplona el Temblón (33), filho de Urraca Fernández e de Sancho Garcés II de Pamplona (34), filho de Andregoto Galíndez condessa d’Aragó e de García Sánchez I de Pamplona (35), filho de Sancho Garcés I de Pamplona e de Toda Aznárez reina de Pamplona (36), filha de Aznar Sánchez de Larraún conde d’Aragó e de Onneca Fortúnez (37), filha de Fortún Garcés el Tuerto e de Awriya ibn Lubb (38), filha de Ayab Al-Bilatiyya e de Lubb ibn Musa (39), filho de Assona Íñiguez e de Musa ibn Musa ibn Fortun al Qasaw (40), filho de Onecca e de Musa ibn Fortún (41), filho por uma parte de Fortún ibn Qasi (42), filho do conde hispanorromano ou visigodo Casius (43), convertido ao islamismo, que morreu em 715, e por outra de Asima bint Abd al-Aziz (42), filha de Egilona (viúva do rei Rodrigo) e de Abd al-Aziz ibn Musa (43), filho de Musa ibn Nusair (44), caudilho militar muçulmano, que participou na invasão da Hispânia visigoda em 712.

1300 anos, 44 gerações.

María Dolores, limpadora das defecações diárias de dom Felipe nas casas de banho da sua mansão: é filha de Dalia e de Miguel, campesinos do Equador, filhos de campesinos de Equador, netos e bisnetos de campesinos de Equador, de nomes e origens desconhecidos.

Alguém acredita que os proprietários da História vão abandoná-la?

 

Capa censurada da revista El Jueves. Uma primeira distribuição de 60000 exemplares foi retirada pola publicação, e destruída. A capa foi substituída por uma caricatura do político Pablo Iglesias. O debuxante da vinheta do rei demitiu-se de El Jueves.

 

As axilas de Bourdieu

12 Maio, 2014 (00:01) | discurso, mercado linguístico, mercado simbólico |

Há uns minutos tentava explicar à minha companheira de quase toda a vida (pobre ela) que eu deveria escrever um texto sério sobre Bourdieu, o meu pensador favorito, o que nos deixou tantas cousas sobre as relações entre língua (e linguagem, e discurso) e o seus valores e “capitais” associados, e a apropriação destes valores polas elites, e a sua conversão destes valores nas sociedades, que explicou tanta cousa como por que se estão a perder as línguas que nos constituem, simplesmente por uma equívoca pulsão de sermos humanos mais perfeitos ao falarmos línguas superiores. Mas dizia à minha companheira que, quando imaginava a custosa tarefa de reunir as minhas notas e ideias cada vez mais fragmentadas pola trivialidade dos telejornais em que consiste a Internet, por exemplo, assaltava-me uma sensação picante nas axilas, algo como uma constatação racional de que, com efeito, tenho axilas (tribulação inexistente quando tomo café ou vejo um filme), ou como se estivesse a produzir inconscientemente sustâncias inodoras diante dum cão ameaçador que não me vai travar ainda que eu quisera para ser herói de mim mesmo, isto é, um picor que associo ao desodorante natural maori de alúmen, pedra de alúmen, pedra da loucura, que vai instalando o Alzheimer progressivo (o ordinário, não o de Adolfo Suárez) a partir dos 50 de idade. Em fim, resumo, escrever algo sério sobre Bourdieu resulta-me impossível porque me assaltam as axilas, as minhas, não as dele, e portanto este texto não é sobre as axilas de Bourdieu mas sobre as próprias, embora um título assim de sincero, “As minhas axilas”, procedente de alguém habituado a oferecer verdadeiros tijolos, provavelmente convocasse ainda mais riso do que este texto.
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Vítimas do Terrorismo

12 Marzo, 2014 (14:59) | ideologia, política, violência |

No Portal Galego da Língua ★ No Diário Liberdade ★ No Praza Pública

Foi tão brutal o atentado que muitos corpos nunca apareceram. As explosões sucederam-se durante muito tempo. Participaram no complô cidadãos e cidadãs normais, pessoas das que se vêem na rua cada dia, infiltradas na cidade. A imensa maioria, de facto, tinham boletins de identidade do país, não eram estrangeiras. Organizavam-se em células pequenas, amiúde amparadas nos templos que durante anos alimentaram o ódio e uma visão messiânica da fé, da raça, da identidade, das missões de conquista e reconquista.

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A Crise do Linguotariado

18 Decembro, 2013 (00:01) | economia, língua, mercado linguístico, mercado simbólico, mudança linguística, política |

No Portal Galego da Língua

Na Fábrica da Lingua, propriedade do Estado, trabalharam durante quarenta anos centenas de pessoas. Cada manhã recolhiam pedaços irregulares de fala do chão milenário, faziam simétricos tijolinhos com esta matéria, distribuíam-nos entre elas, e cada tarde consumiam-nos elas mesmas nas casas, nas escolas, e nalguns atos públicos. Os tijolinhos, organicamente, defecavam-se, e pouco tempo depois encontravam-se de novo no chão da terra na forma de pedaços irregulares que havia que voltar a recolher e processar. Durante quarenta anos.

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Quarenta Anos na Fábrica da Língua

1 Outubro, 2013 (00:01) | classe, discurso, economia, ideologia, mercado linguístico, mercado simbólico, mudança linguística, política |

No Portal Galego da Língua No Praza Pública

Desde há aproximadamente 40 anos se vem construindo na Galiza uma versão (oral, escrita e funcional) da língua do país que geralmente está naturalizada já como o “galego oficial” (paralelamente, não esqueçamos, desde há um pouco menos se vem construindo e praticando a versão “reintegracionista”). As explicações de por que “se” optou por esse caminho (e deixo o “se” deliberadamente ambíguo por enquanto), desde e com as instituições, são variadas, mas entram no geral em três grandes blocos de critérios: fidelidade à tradição escrita, fidelidade à fala (e — dizem que portanto — maior aceitação social), e facilidade de uso. Não é objeto deste escrito comentar os critérios anteriores, já muito debatidos. O facto inegável é que, nesta altura, essa versão da língua, que chamarei o “galego-RAG”, está amplamente reconhecida (na medida em que pode está-lo uma língua em processo de extinção), sem que isto empeça que a visão alternativa (e simbólica e politicamente contrária), o “reintegracionismo”, esteja também naturalizada noutros grupos de pessoa possivelmente crescentes.

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As decisões políticas e a morte das pessoas

28 Xullo, 2013 (23:08) | discurso, economia, política, sociedade |

No portal de EDiSo – Associação de Estudos sobre Discurso e Sociedade

Os factos são cruéis, e provavelmente conhecidos. Mas, polo argumento a desenvolver, e com respeito, devem ser lembrados:

  1. Em 24 de julho de 2013, um trem rápido da RENFE (Red Nacional de Ferrocarriles Españoles) procedente de Ourense, na Galiza, descarrilou numa curva perto da entrada à capital, Santiago de Compostela. Morreram, até hoje, 79 pessoas, e dezenas delas ficaram feridas.
  2. Tudo indica que o comboio viajava no momento do acidente a uns 190 km/h numa zona onde devia circular a 80 km/h.
  3. Tudo indica que o trecho da curva e alguns quilómetros prévios não dispunham de nenhum de dous possíveis sistemas de segurança avançados (ERTMS e ASFA Digital), qualquer dos quais teria detido o comboio ou reduzido a sua velocidade automaticamente, evitando o acidente. O sistema de segurança utilizado era ASFA Analógico, que deixa o controlo da velocidade exclusivamente nas mãos do maquinista (“O tramo do accidente tiña o sistema de seguridade analóxico de hai medio século”, Praza Pública, 28 de julho de 2013; recuperado em 28-07-2013, 20 h. 43 m.; “El tramo del accidente de Santiago tenía el sistema de seguridad analógico de hace medio siglo”, eldiario.es, 28 de julho de 2013; recuperado em 28-07-2013, 20 h. 44 m.)
  4. O resto da via rápida Madrid – Compostela dispõe de algum dos sistemas avançados de controlo.

Em resumo, nalguma altura da construção desse trecho de via houve uma decisão, um ato discursivo dalgum tipo, no sentido de não instalar nenhum dos sistemas avançados de controlo automático. Algumas informações apontam — mas não está documentado — que, com efeito, se solicitara a instalação destes sistemas de segurança. Se assim for, qualquer decisão posterior seria resposta a esta petição. Seja como for, estas circunstâncias não mudam o essencial da centralidade do ato de decisão. Por feito ou por omissão, houve um ato ou série de atos discursivos (orais, escritos e/ou formulaicos) que estabeleciam ou mantinham um sistema de controlo ineficiente, o ASFA Analógico. Mas no regime político da economia e da técnica, qualquer decisão técnica ou económica e também política. E, na cadeia de discurso em que consiste a vida política, os atos engranzam-se com circunstâncias que — procuraremos ver — não são alheias a um discurso que é amiúde concebido, erradamente, como realização estéril, asséptica e simplesmente maquinal de “significados”.

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Independência: A Quinta Terra

7 Maio, 2013 (00:01) | discurso, política |

No Portal Galego da Língua No Diário Liberdade

Se a Propaganda e a realidade não se encarregasssem de ir desgastando um lado das palavras, resultaria paradoxal o seguinte facto: que é a própria autonomia de Galicia que impede a independência da Galiza, porque a primeira (auto-nomia, ‘com as suas próprias regras’) etimologicamente significa justo o segundo (in-dependência), mas politicamente significa o contrário. Além, a coexistência dos dous nomes coletivos nossos em imaginários cruzados entre dous estados do capital permite a Fé no paradoxal, a acomodação ideológica do irrealizável: a Fé em que a partir da autonomia que nega a independência se possa chegar nem sequer ao federalismo que também a nega. A matemática política dá lugar assim, por multiplicação de dous por dous, às quatro terras que forçam a nossa paralisia permanente: a Galicia española, a Galícia portuguesa (entendida através da España), a Galiza española, e a Galiza portuguesa, cada uma a turrar para que nada se mova, exatamente para que não nasça a quinta terra: a Galiza galega, ou, melhor ainda, a Galiza sem adjetivo, ácrata, porque como nome é apenas resumo, não essência.

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Descapitalizar a Língua e o Discurso: sobre o galego, o valor e o capital

21 Xaneiro, 2013 (00:00) | campo académico, discurso, economia, mercado linguístico, mercado simbólico, política |

No Portal Galego da Língua No Diário Liberdade

Em 1987 eu estava a fazer a tese de doutoramento numa universidade dos EUA. Tinha 28 anos, e vinha periodicamente a estadias na Galiza para a pesquisa. A tese, sobre o que chamei “a institucionalização do galego”, procurou descrever os começos da introdução estruturada do galego no estado e no poder como objeto de legislação, como elemento de ideologia, como recurso apropriável e como prática de uso. A investigação — é significativo indicar para os argumentos posteriores — foi subsidiada repetidamente, ora pola universidade americana, ora por capítulos do ministério espanhol de negócios estrangeiros destinados à colaboração científica com os EUA.

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